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Efeito miojo: sobre querermos tudo pra ontem


Ele me pergunta o que eu sinto. Eu digo, mas assim que as palavras saem da minha boca, eu mudo de ideia. Nunca tenho certeza de nada. Ainda mais sobre coisas abstratas que não podem ser mensuradas e provadas. 

Eu frequentemente voo pra longe. Para quão incrível o futuro pode ser e para o quão glorioso foi o passado. E a cada passo que a minha imaginação dá, é como se eu vivesse por alguns minutos (às vezes horas) em outra realidade e com isso, os meus sentimentos mudam. Eles são bem traiçoeiros. 

Eu tenho um poderoso arsenal de memórias e uma criatividade sem limites para criar diálogos, cenas. E não há nada que ninguém possa fazer sobre isso. A gente sempre tenta parar com o lance de criar expectativas, porque no fundo sabemos que essa prática dificulta a nossa felicidade florescer. 

Mas às vezes bate uma amargura em relação a vida. Sobre como ela não é do jeitinho que a gente gostaria que fosse. Então, temos a possibilidade (mesmo que etérea) de criarmos o que quisermos sobre qualquer coisa. 

E por um tempinho bate aquela sensação de satisfação e orgulho de uma criação. Mesmo que ela se desfaça a qualquer momento e que isso nos corroa por dentro depois, parece desperdício ignorar um dom maravilhoso que temos em projetar um mundo (volátil) só nosso. 

Aceitar a realidade é uma questão de sobrevivência. Mas criar expectativas sobre ela é como receber um cafuné no colo de alguém. É um consolo. Uma espécie de compensação. Que deve ser usada com moderação, mas ainda assim deve existir. 

É com esse impulso perigoso que percebemos o que queremos no momento, mesmo que não seja possível naquele instante no nosso mundo real. Eu sei, querer não é o bastante. É como alguém que quer emagrecer, mas não faz exercícios físicos. 

A diferença entre o pensamento e a ação é a tal da mágica. Quando criamos algo, não há demora, nem dificuldades. O que queremos acontece num piscar de um miojo. Mas a gente sabe que o macarrão instantâneo não é tão nutritivo quanto a verdadeira massa italiana.

Porque o que vale a pena leva tempo, justamente para que a gente valorize aquilo. E para que tenhamos a tal da certeza do quanto queremos determinada coisa. 

Por isso demora. 

Porque quando acontece, é de verdade. 

E a gente descobre que a certeza estava ali o tempo todo.   


Foto e texto: Carol Chagas

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