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disposições líquidas

as melodias conversavam comigo frequentemente. as palavras cantadas surgiam como penas que se soltam dos travesseiros: bonitas, mas sem ter como retornar a um lugar de origem. eu repassava os dias e as noites, não como quem busca sinais - ainda acho que não havia equipamento o suficiente para enxergar as rachaduras -, mas como alguém que resgata lembranças. 

quando o passado era o presente, não havia tempo e disposição hábeis para reparar. pelo menos comigo, as análises sempre vieram depois do fim. do tão valioso tempo a sós, que de só tem muito pouco. 

os gestos nunca passavam desapercebidos, mas as vias respiratórias também não costumam ponderar sobre a respiração. ela simplesmente acontece, até que deixa de acontecer perfeitamente. eu pensava em um mundo inteiro de significados que eu havia aprendido e agora me via sem saber onde usar. 

o espaço ininterrupto entre viver uma vida funcional e conhecer o universo de outra pessoa tendem a pressionar o hipocampo ou seja lá o nome que os cientistas resolvam dar para partes sensíveis do cérebro. 

como uma panela de pressão, que felizmente quase nunca explode, a cabeça também é capaz de deixar escapar para se proteger. 

até então em minha vida, os corpos nunca haviam sido tão intrínsecos e a vontade de ficar nunca antes tão latente. as conversas ainda não tinham durado horas ou até tinham, mas agora parecia que os minutos haviam se multiplicado ao mesmo tempo em que escorriam do relógio. 

voltar para minha vida era um sacrilégio. te ver sair da minha, inconcebível. eu torcia para nos esbarrarmos. apenas um beijo de bom grado, mas sabíamos que este nunca seria um filho único. até mesmo agora, tempos depois, imagino o que foi feito das horas e dos dias desse mês de março. é como se a vida por vezes se acomodasse (e por muitas atrapalhasse) e entrasse em estado de suspensão para me deixar viver o fim do verão. 

eu era outra, sob algum tipo de estado de magia, nunca antes tão ausente da melancolia. era assim que era se entregar sem cercas e caretas? mergulhar dentro do outro sem vislumbrar um fim é quase que uma experiência extracorpórea, é como se atirar ao vazio. 

eu tenho medo de altura, mas pela primeira vez não tive medo de alcançar alguém e me deixar ser alcançada na mesma medida, em pé de igualdade. já disse muitas vezes que estava pronta e talvez a minha memória apenas seja curta, por isso escrevo, mas eu nunca encontrei alguém que me fizesse sentir tantas coisas diferentes, mas dentre elas, uma em especial: o sentimento de casa. 

já me senti à vontade, sim. já andei descalça, falei por horas, mostrei muito de mim sem receios, desejei sem ser em segredo, é claro. mas assim? querer beijar até esfolar a carne, abraçar como quem mergulha sem se preocupar se dá pé, ouvir e contar até o último fio de cabelo, criar criar criar! jogos, músicas e voltas ao mundo cotidiano. 

investigar as pintas, tatuagens, sombras e estranhezas. decorar o corpo todo feito mapa, como se esse também fosse o meu corpo. querer me analisar pra entender onde é que fica o outro em mim. nem pensar sobre a possibilidade de não encaixar, porque a ideia de desencaixe seria impossível. assim dessa maneira? não, nunca havia vivido. 

me faz pensar o que eu estava perdendo e agora mais ainda, se encontrarei novamente algo tão visceral e íntimo. pouco funcional, é claro. mas palavras como tórrido e avassalador agora ganham sentido pra mim. entrego ao corpo e aos olhos do acaso alguma descoberta semântica que eu por sorte, ou por azar, venha a viver e experimentar. o futuro dirá!

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