enquanto me lembro do que eu acreditava ser um rio de duas cores, penso em como tenho me sentido desconectada. são poucas as coisas que me trazem para o presente. choros diários, viagens intensas, demandas do trabalho, tempo com os meus amigos, a escrita por vezes (como agora).
não faço ideia de qual caminho devo seguir, minhas pistas são curtas como o aeroporto de congonhas. quero comprar uma cama nova, ir à festa junina da igreja do lado de casa. os desejos vão até um certo limite.
penso no fim de semana e me imagino querendo te encontrar. faço planos mentais e crio um pequeno castelo visual, mas me desfaço da imagem logo em seguida. você está mais perto do que antes, mas ainda sinto sua falta. agora parece não haver cores como antes, tão cintilantes. é como o céu em dias nublados: claro o bastante para iluminar, difuso o suficiente para incomodar.
me vejo sentindo sozinha e ao sentir que não sou correspondida na mesma intensidade, me despeço do que sinto, um pedaço por vez. você parece me querer a uma certa distância, instância. instantes específicos aos quais aparentemente não tenho escolha, já que o relógio, ampulheta ou qualquer outro objeto feito para metrificar o tempo, não está em minhas mãos.
se levar as coisas com leveza é o mais saudável a se fazer, porque me sinto tão apática? o vazio que existia antes de você e provavelmente existirá depois de tanta coisa ainda resiste, persiste, se alastra, me desmonta.
choro como quem tenta encher um poço, colar peças sem entender o que de fato se quebrou. tento encontrar sem saber o que perdi. mas pareço distante. nunca perto o bastante. acho que eu preciso de mais. você nunca foi uma resposta, mas ter se tornado uma fonte constante de perguntas faz com que minhas dúvidas sejam ondas e eu estou cansada de nadar.
queria terra firme, porto seguro. mas novamente, as areias se mostram movediças. gostaria de descansar no balanço de um barco e acordar em linhas confortavelmente orgânicas. mas a cada construção, só me restam as palafitas e os manguezais. tudo que afunda, se abala, não resiste à erosão e ao tempo.
como descobrir como me sinto e o que quero para além de línguas oceânicas?

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