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ensejo do dia

em um dia de domingo, senti que poderia ser plantada. assim, como figura que não imagina ganhar vida com desenho. no seu abraço, senti que poderia ser outra coisa, pessoa. poderia acessar um lugar que até então pra mim, aparentava ser inacessível. um lugar que só se conhece com o outro. e eu, que por tantas vezes me vi com um terror absoluto sobre o que o outro poderia fazer comigo, desejei o desmonte total de quem eu era. tudo parecia tão natural como nunca antes: as conversas, as caminhadas, as refeições, até mesmo as reclamações. imaginei que duraríamos até o fim do meu perfume e quando descobri mais dois vidrinhos da mesma fragrância em meu armário, pensei que teríamos chance. você era você, eu era eu. mas me parece que comigo, as coisas nunca são simples. me sinto mal em deixar de ver alguém com quem gosto tanto de conversar. apesar de contraproducente, sinto que preciso de mais. mereço algo maior do que eu mesma. mereço algo único, cristalino e seguro. mas a consistência que eu p...
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línguas oceânicas

enquanto me lembro do que eu acreditava ser um rio de duas cores, penso em como tenho me sentido desconectada. são poucas as coisas que me trazem para o presente. choros diários, viagens intensas, demandas do trabalho, tempo com os meus amigos, a escrita por vezes (como agora).  não faço ideia de qual caminho devo seguir, minhas pistas são curtas como o aeroporto de congonhas. quero comprar uma cama nova, ir à festa junina da igreja do lado de casa. os desejos vão até um certo limite.  penso no fim de semana e me imagino querendo te encontrar. faço planos mentais e crio um pequeno castelo visual, mas me desfaço da imagem logo em seguida. você está mais perto do que antes, mas ainda sinto sua falta. agora parece não haver cores como antes, tão cintilantes. é como o céu em dias nublados: claro o bastante para iluminar, difuso o suficiente para incomodar.  me vejo sentindo sozinha e ao sentir que não sou correspondida na mesma intensidade, me despeço do que sinto, um pedaço ...

disposições líquidas

as melodias conversavam comigo frequentemente. as palavras cantadas surgiam como penas que se soltam dos travesseiros: bonitas, mas sem ter como retornar a um lugar de origem. eu repassava os dias e as noites, não como quem busca sinais - ainda acho que não havia equipamento o suficiente para enxergar as rachaduras -, mas como alguém que resgata lembranças.  quando o passado era o presente, não havia tempo e disposição hábeis para reparar. pelo menos comigo, as análises sempre vieram depois do fim. do tão valioso tempo a sós, que de só tem muito pouco.  os gestos nunca passavam desapercebidos, mas as vias respiratórias também não costumam ponderar sobre a respiração. ela simplesmente acontece, até que deixa de acontecer perfeitamente. eu pensava em um mundo inteiro de significados que eu havia aprendido e agora me via sem saber onde usar.  o espaço ininterrupto entre viver uma vida funcional e conhecer o universo de outra pessoa tendem a pressionar o hipocampo ou seja lá ...

o imo de tudo.

Essa época do ano sempre traz surpresas, mas neste ano, tem me aparecido o silêncio. Ele, que é resposta e pergunta, acento agudo e circunflexo, frase e oração.  Tenho preferido essa distância do que quer que seja verdade. Sempre prefiro saber, mas neste caso em especial, acho que prefiro esperar. Assim como o cacho de bananas verdes que comprei hoje no mercado, algumas coisas são melhores maduras.  Acho que tenho me preferido como companhia e flanar tem sido meu verbo favorito por não saber direito como me portar ultimamente.  já tive tantos sonhos, tantos, que chega a ser maluco pensar que de todas as vidas que sonhei, essa é a que tenho. Não me leve a mal, acho até que me divirto e tudo mais, mas o que eu vivo agora não chega nem perto do que sonhei.  e talvez a vida adulta seja isso mesmo, quebrar a cara, as expectativas, o pau da barraca. mas será que é isso mesmo? sinto que se deixasse de existir hoje, me veria incompleta. sinto falta de mim, mas mais do que is...

o dia que te reconheci.

nunca escrevi sobre você, pelo menos não até o momento. não sei se porque enquanto vivíamos o que vivemos, eu não pensei em nada além de agora. e depois, quando tudo acabou como festa em que cortam a música, desligam a luz e nos mandam pra casa, fiquei escolhendo quais memórias deveria guardar pra mim.  nunca soube muito bem como me desvencilhar de amores que acontecem até não aconteceram mais. mas acho que dessa vez, foi um pouco além disso, me senti refém de um sentimento durante o ano todo.  uma inquietação, um bloco de concreto crescendo na garganta, um cigarro aceso que já queimou o que tinha pra queimar e que mesmo sem ninguém fumar, continua ali deixando o cheiro intoxicante da nicotina. sinto que agora tudo está se dissolvendo. entre goles de água e outras coisitas más , o meu ressentimento está se transformando em algo menor e mais palatável.  o tempo traz perspectiva para as coisas e olhando pelo retrovisor, sua presença começa a me incomodar menos. acho que eu ...