segunda-feira, 27 de outubro de 2014

Onde Está o Tempo?

O pingar da torneira me acorda. Não costumava ter sono leve, mas isso vem mudando há um tempo. Só que eu não sabia o motivo. Estou feliz e em paz. Então, por que meu corpo quer me convencer do contrário? 

Talvez ele não esteja se expressando muito bem ou eu devo estar tão absorta em meu interior, que não há espaço para outra preocupação. Deve ser um pouco dos dois. Existem momentos em que você se pergunta de onde vieram as suas verdades. De onde vem aquilo que você acredita e conhece a vida inteira?

Sabe a crise da meia idade? Resolvi antecipá-la para aos 17. Nada melhor do que sofrê-la no final da adolescência. Ás vezes sinto como se quisesse começar tudo de novo. Voltar lá na infância. Chorar menos, assistir mais desenhos e ir brincar mais na casa dos amiguinhos.

Acho que era o passado que não me deixava dormir. Sou do tipo que se apega a situações, pessoas e sentimentos. Estou tentando mudar isso aos poucos. Mas acho que tudo tem seu preço, não? Por que será que o pretérito imperfeito e o futuro do subjuntivo são mais interessantes do que o presente do indicativo?

A nossa memória pode ser a culpada. Ela é bem seletiva e só deixa entrar emoções fortes, impressões, sejam elas boas ou ruins. Acho que é por isso que sempre temos a impressão de que éramos mais felizes lá atrás. Agora, quanto ao futuro, coloco a culpa no cérebro, que adora nos iludir e criar expectativas.

É engraçado como ele nos controla, utilizando a felicidade. Ele faz você criar uma situação perfeita (e que é irreal), onde você pense que está feliz e não existem problemas. E isso faz com que a gente crie um fiozinho de esperança.

Nos agarramos a ele, por medo de nos desequilibramos nesse túnel do tempo. O grande problema é que quando vivenciamos a cena, ela não é como nós a imaginamos. E isso traz decepção. E se nós nem chegamos a vivenciá-la, traz mais tristeza ainda.

Queria achar um blog, um livro ou uma música que me dissesse como faz pra burlar esse sistema. Sou brasileira, dou meu jeitinho pra tudo. Por que com esse tal de cérebro seria diferente? 

Já tentei me ocupar e me distrair com outras coisas. Mas aquele fio de esperança insiste em me cutucar. Quase como me convidando a dar uma espiadinha. Seja para olhar pra trás ou para esforçar a minha vista (e a minha miopia) olhando demais pra frente. Será que é possível olhar somente para o Agora?

Escuto a torneira novamente. Levanto-me e a fecho. Já é dia. E eu perdi mais uma hora preciosa de sono para pensar sobre o que era desnecessário. Posso dormir mais um pouco? Não! Consciência me avisa. 

Desobedeço e fecho os olhos. Me recuso a pensar novamente. Greve de pensamentos. Mas acabo pensando na expectativa. Esperança é algo bom? E se é, por que nos faz mal? Não seria melhor colocar a culpa em nossa falta de força de vontade em controlar o tempo que temos? Seria, mas o melhor nem sempre é o que fazemos. 

Texto: Carol Chagas
Foto: We Heart It 

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