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voltei a escrever a lápis.


Quando estava na segunda série, minha escola decidiu que éramos alfabetizados o bastante para começar a escrever as tarefas com caneta. me parecia cedo e importante demais. 

Não faço ideia se os professores nos avisaram como seria. mas lembro-me de ficar nervosa e surpresa. mais tarde eu saberia melhor como me sentiria à respeito de rituais e tradições. mas aos 6 anos, me sentia ansiosa a cada ''próximo!'' dito pela professora, enquanto espiava os que entravam e dali não saíam pelas frestas da janela com grade. 

Por fora, eu tagarelava algo - que nunca vou saber ou lembrar - com meus amigos. mas por dentro, eu sabia que a minha vez ia chegar. e era inevitável. eu só não sabia se isso me deixava feliz ou com medo. talvez os dois. a gente nunca sabe o que esperar ou o que sentir sobre o que não sabemos que acontecerá.

Ao entrar, ganhei uma caneta azul bic com um laço rosa e um papel enroladinho. era um recado, comunicado ou qualquer outra coisa que informe algo. parabéns!, dizia o bilhete, agora você escreve com caneta. devo ter ganhado também um pirulito. tudo era motivo para se ganhar doces na escola. eu que quase não comia, geralmente levava tudo pra minha mãe ou passava pro amigo ao lado que parecia querer mais.

Na hora, eu só conseguia pensar em quantas crianças ao redor do mundo também começavam a escrever com caneta pela primeira vez naquele exato momento. e em como as crianças da primeira série ainda não estavam prontas para fazer o que fazíamos naquele momento. porque éramos mais adultos? era um teste? 

Isso aí ainda é um costume meu. costumo engrandecer minhas experiências não por serem minhas, mas porque sempre penso em como o coletivo as vivencia. naquele dia, eu vivi o mesmo que 24 crianças. o que cada uma pensou sobre? o que acharam os outros alunos ao viverem aquilo? não me lembro de ter perguntado.

Hoje vejo que muita gente não passou pelo ritual da caneta bic e eu sei que não foi nada demais. mas hoje aprecio o gesto. 

Por semanas depois daquela tarde, escrevemos como quem pisa em ovos. com cuidado, cautela. nem conversávamos enquanto escrevíamos para não errar. seria a caneta uma tentativa de controle da diretoria? prestávamos tanta atenção, mas volta e meia alguém errava. e eu via que surgia uma frustração. mas era óbvio que em algum momento um erro aconteceria.

Com o passar do tempo, surgiu o branquinho, errorex, [insira aqui como se fala na sua cidade] e a pressão diminuiu. errar passou a ser acompanhado do verbo corrigir. e nós nunca mais erramos da mesma forma. ali, o erro passou a ser palpável. e o conserto também.

Na segunda série, escrever à caneta era como ter certeza do que se estava falando, escrevendo e fazendo. e escrever à lápis era um ato inocente que a qualquer momento poderia ser desfeito. ainda não entendi porque essas dualidades me perturbam. mas por anos, só escrevi à caneta. menos nos exercícios de matemática. nunca tive certeza sobre os números.

Mas nas letras e palavras, mesmo que eu errasse a ordem ou o que eu queria dizer, o rumo era sempre foi muito claro. 

Em meu caderninho diário de anotações, poesias e músicas, depois de muito tempo escrevendo com caneta, voltei a escrever a lápis. não me sinto menos incerta do que me sentia na semana passada. 

mas me parece um bom momento para abandonar as certezas por completo sem deixar muitas marcas de caneta riscada. não é sempre que a gente quer misturar os erros com o que está pronto. mesmo que errar faça parte de quem somos e nunca deixe de acabar.

- escrevi esse texto no bloco de notas, então é como se ele fosse eletronicamente a lápis. 
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- Para mais crônicas como esta, clique aqui.







Texto e Foto: Carol Chagas

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