terça-feira, 18 de setembro de 2018

5.

Setembro, 2018.
O reflexo da luz do poste na minha parede. O sol se pondo e iluminando o cabelo claro de minha amiga. As batidas frenéticas na porta quando nasce alguma novidade. O som no último volume - e ainda assim não alto o bastante - como trilha da limpeza. Os arco-íris que aparecem por tudo quanto é canto depois das 11h. Conversas dentro de minha casa que caminham horas a fio, até o dia se apagar lá fora. 

Quando morava com meus pais, meu lar eram vários lugares. O meu quarto. A parte de trás da porta do meu banheiro. A sacada. A cozinha durante a madrugada. Nesses espaços era onde eu mais me sentia viva. Como se eu pudesse me iluminar inteira de uma só vez. 

Hoje vejo que no meu lar há vida em todos os cantos. Minha. E de outros seres que, vez ou outra, resolvem fazer morada por aqui. Já mudei a mesa três vezes de lugar e, cada vez, tem mais gente de quem eu gosto ao redor dela. Minha casa é abrigo temporário. Casa de passagem. Retiro de memórias. E testemunha de transformações. 

Ela me viu em meus piores e melhores (felizmente maioria) momentos. Presenciou as inúmeras vezes em que ignorei o despertador, mensagens e ligações. Também viu quando me rendi a conversas sobre as tantas possibilidades de vida que podemos escolher pra nós mesmos. Ela me deu as melhores vistas. Da rua, do céu, de gente que chega. Ela respeita minhas partidas e me acolhe lindamente nas chegadas. 

Meu lar já me viu escrever sobre o abstrato que mora em mim nas horas mais inesperadas. Minhas tentativas na cozinha e em organizar minha vida como quem cuida de um planejamento financeiro. Cheguei em branco na quinta kitnet. Já fui rascunho e bolinha de papel. Hoje permaneço debaixo de todos os livros da casa esperando voltar a forma original. 

Escrevo tantos textos para pessoas e sentimentos que, pareço esquecer de um personagem quase que presente em todas minhas mutações. Ela é constante por sabe-se lá quanto tempo. Tenho cuidado mais dela, e, consequentemente de mim. Ela é minha paz certeira, mesmo quando tudo parece ser incerto. 

Minha primeira morada é crescimento. 
Início. 
Ponto de partida para as voltas que eu sei que a vida ainda vai dar.
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Foto e texto: Carol Chagas

domingo, 26 de agosto de 2018

Deixe o vazio entrar.

Agosto, 2018.
Já fazia um tempo que eu me sentia inteira. Eu tinha noção dos meus limites e de quem eu era. Eu me sentia completamente á vontade comigo mesma. Tanto que agora, por vezes, eu não sentia mais a necessidade de preencher silêncios. 

Eu me permitia sentir tudo aquilo que minha essência quisesse absorver, transbordar e expressar. Eu me dava tempo, espaço e colo. Mas mesmo com tanta descoberta linda sobre mim, eu ainda me sentia incompleta. E isso não parecia fazer sentido. 

Às vezes parece que a vida tem dessas. Ela revira a gente do avesso mesmo quando a gente acha que a casa tá em ordem. A gente descongela a geladeira com um everest acumulado dentro dela, esperando que o calor do lado de fora também derreta tudo dentro da gente. Mas de alguma forma, a porta continua emperrada. 

Conversava dias desses com uma amiga sobre o vazio que às vezes fazia morada dentro da gente. E de como o limbo nos assolava sorrateiramente tarde da noite. Mesmo se entregando à vida, ela acreditava e ao mesmo tempo desconfiava dela. Compartilhávamos da mesma fé de que as coisas sempre seriam o melhor que elas poderiam ser. Mas ao mesmo tempo, isso tudo soava tão distante. Como se nunca existisse de fato. 

As idealizações de uma versão antiga minha faziam cada vez menos sentido. Todas elas se perdiam. Pereciam uma a uma e me levavam junto. O vazio que às vezes inundava e às vezes sufocava não me prendia. Ali eu podia ser tudo aquilo que eu nunca nem pensei que gostaria de ser. 

Um amigo meu me disse ontem que neste ano eu era dona de mim mesma. E talvez seja isso. Não estou acostumada com o peso das chaves da minha própria vida. Não estou habituada a escolher o que quero pra mim ou fazer o que sinto vontade. Talvez este seja o preço que a gente pague durante o processo. 

O vazio, o limbo e o silêncio não parecem ser espaços que devam ser preenchidos. Parecem apenas um caminho que deve ser desfrutado. Mesmo que por vezes incomode, ele é uma trilha só nossa. Nem sempre vai ser confortável e prazeroso. 

Mas a sua graça mora justamente em descobrir toda e qualquer parte que a gente encontrar quando mergulharmos. Não se prender a um ponto de vista me parece ser um belo dum jeito de viver a vida que a gente quiser viver. Independente do que encontrarmos por aí.
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Foto e texto: Carol Chagas

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