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começar sem acabar e acabar sem começar

de longe, consigo ver três livros que comecei ano passado e que nunca nem cheguei a saber como acabavam. 

cada objeto na mesinha do meu quarto grita uma coisa ainda incompleta. o hd, esperando a tão sonhada organização das fotos; o livro novo esperando ser lido; o caderno de anotações (que eu prometi escrita todos os dias) não vê um escrito já faz tempo.

um a um, eles somam algumas de minhas vontades que não foram pra frente.

e esses são só exemplos palpáveis, terrenos e mundanos. ainda tem aqueles que não são muito específicos, são ideias, desejos e histórias que mereciam um desfecho ou talvez até uma continuação. mereciam mais do que apenas serem abandonados num canto esquecido.

mas será que tudo realmente precisa caminhar para algum lugar?

sinto que estou tão acostumada a ler, ouvir e assistir histórias que se constroem sobre um tempo com começo, meio e fim, que me esqueço que a cronologia real nem sempre é como achamos. 

algumas pontas soltas se deixam soltar por anos, antes de mostrarem o porquê de existir. algumas coisas não são resolvidas por outros, porque precisam ser resolvidas por nós mesmos. 

e a vida, felizmente ou infelizmente - deixo em aberto para cada caso -, não obedece a leis roteirísticas. ela tem seu fluxo imprevisível, que flui até que não possa mais fluir. não é sobre você ler ou não aquele livro, nem sobre você processar aquela história que deixou de viver.

é sobre precisar de ponto pra começar. daquela virada de ano barulhenta pra entender o silêncio do dia 1 como recomeço. mesmo sabendo que o ontem e o hoje em 20/21 se misturam. é sobre conciliar lugares e amarrar enredos, na ânsia de que a estrutura esteja completa. mesmo sabendo que o seu recorte deixou um mundo de outras coisas de fora. 

eu nem sempre sei acabar o que eu começo. 

às vezes até sei, mas não sinto vontade. sinto é medo. e vou fazendo uma pilha para mais tarde, até que a noite do ano seguinte chegue e eu já nem me lembre de como aquilo deveria acabar. 

e depois de tanto tempo, me pergunto: ainda vale a pena dar um fim para o que já se pontuou sozinho?

não existe regra. o que existem são duas histórias. a que começa e termina e a que acaba sem saber quando acabou. 

e eu não faço a mínima ideia de como finalizar esse texto, portanto, vou deixá-lo na pilha da mesinha do quarto.
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Texto e Foto: Carol Chagas

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